Introdução
Os moradores mais antigos contam que a região antigamente “não tinha nada, era um mato só”. E com estima se fala que a maioria das conquistas para a melhoria do bairro, como asfalto, escola, abastecimento de água e energia elétrica, foram através do esforço coletivo dos moradores que no passado se organizaram. O único aparelho público no bairro é a Escola Estadual Assis Ambrósio, localizada no ponto de maior altitude, cujo nome é uma homenagem ao presidente de uma antiga associação de moradores extinta na década de 1980. Atualmente, através da intervenção do Projeto Células de Transformação, desde junho de 2011, os moradores do Peri Alto estão resgatando esta força de sua história, de seus laços e de seus sonhos, tornando realidade a UMPA - União dos Moradores do Peri Alto, e, assim, retomando com as próprias mãos seu futuro.
Conhecendo
O bairro Jd. Peri Alto, localizado na zona norte da cidade de São Paulo, fazendo fronteira com o Parque Nacional da Serra da Mantiqueira, é predominantemente residencial, contando com cerca de 5000 famílias. Possuindo algumas igrejas, católica e evangélicas, bares e pequenos comércios, o Jardim Peri Alto, se subdivide em duas partes, referentes ao tipo das construções e à condição sócio-econômica: o Peri Baixo e o Peri Alto. O Peri Alto é formado por casas de alvenaria e seus moradores possuem um poder aquisitivo maior que o restante do bairro. O Peri Baixo, os “Sem-Terra”, localizado no perímetro de menor altitude do bairro, às margens do córrego e à beira da serra, possui uma situação de alta vulnerabilidade social, devido desde as condições precárias de moradia, falta de saneamento básico, problemas com enchentes, presença de ratos e de água contaminada, até a falta de acesso a educação e analfabetismo. É uma localidade da qual o Estado possui escassas informações, o que limita até mesmo o atendimento destas famílias por programas como Bolsa Família. Seus moradores estão colocados às margens do acesso a direitos básicos de vida. Diante desta situação são inspiradoras a presença, entre outras iniciativas de protagonismo, da associação de moradores que luta há muitos anos pela questão da moradia, e de experiências de agricultura urbana realizadas pelos moradores.
Parceiros
Na atuação no Jardim Peri Alto, contamos com o apoio da organização não governamental AMURT-AMURTEL e do Programa Escola da Família. A AMURT- AMURTEL, presente no bairro desde década de 1980, possui uma creche, para crianças de 0 a 3 anos, e um Centro de Crianças e Adolescentes (CCA), a partir dos quais, além de oferecer educação gratuita, realiza festas e ações de assistência social, como distribuição de leite e cestas básicas. Com o Programa Escola da Família, demos apoio na realização de festas e eventos como, por exemplo, o casamento comunitário.
Objetivos
CdT, no Jardim Peri Alto, tem como objetivo o empoderamento dos moradores e organizações comunitárias presentes no bairro. Para tanto atuamos em três principais eixos:
- Desde julho de 2011 iniciamos o processo de formação da associação de moradores do bairro, UMPA (União dos Moradores do Peri Alto), visando a capacitação de lideranças comunitárias que sonhem, planejem e realizem juntas ações de melhoria do bairro, em diálogo com o terceiro setor, o poder público e privado.
- Atuamos com o desenvolvimento de atividades voltadas para jovens e tecnologias de comunicação e informação, como oficinas de fotografia e cinema, buscando o fortalecimento de laços e formação de identidades, assim como a valorização do patrimônio sócio-cultural e ambiental do bairro.
- Atuamos com o Peri Baixo, em fase inicial de diagnóstico participativo, buscando fortalecer e integrar as iniciativas de desenvolvimento comunitário.
História da Atuação
Em junho de 2011, com o intuito de conhecer moradores, foram realizadas oficinas de Tecnologia de Informação e Comunicação para adolescentes e adultos, assim como foram realizadas intervenções na festa julina e festa do dias das crianças organizadas pela AMURT.
A partir de julho de 2011 foi realizado um processo de diagnóstico participativo, com moradores de todas as idades, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Levantando necessidades e sonhos, os moradores, de modo geral, descreveram o bairro da seguinte maneira: em situação de dependência de outras localidades, não possuindo áreas de lazer, atividades culturais, unidade básica de saúde; saneamento, posto policial, iluminação pública e policiamento inadequados, além de falta de abastecimento de água aos fins de semana e “problemas sérios com a juventude”. Segundo os moradores, o “Jardim Peri Alto não existe”.
Em agosto, foi informalmente constituído um grupo, inicialmente com o objetivo de formar uma associação de moradores para a consolidação de melhorias in loco e que fosse reconhecida perante a própria comunidade e a subprefeitura. Esse grupo era conhecido como a Rede Peri Alto, formado por 30 pessoas residentes no Peri Alto, com idade entre 17 a 73 anos e composto por 30% de homens e 70% de mulheres. Este grupo reunia-se quinzenalmente para diversas atividades. O foco destes encontros eram: criação de empatia e ligação fraterna entre os moradores, atuação conjunta, constituição oral da história do bairro; resolução de conflitos e organização e preparação de documento para participação no O. P. - Orçamento Participativo, da Prefeitura Municipal de São Paulo. Consolidado esse grupo, iniciamos também uma série de entrevistas com os moradores do Peri Baixo, buscando planejar e realizar um trabalho que os envolva de maneira mais efetiva.
No dia 31 de Agosto de 2011, a Rede Peri Alto participou da reunião do Orçamento Participativo na Subprefeitura da Casa Verde, apresentando as demandas que levantaram ao longo do processo de diagnóstico participativo. Entre as principais demandas, estavam a criação de um posto de saúde para o bairro. Foi entregue ao subprefeito 5000 assinaturas. Após a entrega das propostas para o Orçamento Participativo e as reuniões da Rede Peri Alto, os moradores participantes assim se expressaram como se sentiam: “Nós existimos”.
De setembro a dezembro de 2011, demos continuidade ao processo da Rede Peri Alto, trazendo palestrantes sobre temas diversos e lideranças comunitárias de outros bairros, trabalhando o estatuto para a formação da Associação de Moradores e também organizando a causa em prol do posto de saúde. Os moradores, sempre com a facilitação dos multiplicadores, acompanharam o processo junto a Sup-prefeitura e, em dezembro, aproveitaram a realização de uma Missa Campal no Peri Baixo, transmitida ao vivo para a Alemanha, para entregar ao Bispo da Igreja Católica uma carta para solicitação do posto de saúde para o bairro. A carta chegou até a Secretária da Saúde e atualmente estão em processo de encontrar uma casa para receber três equipes do Programa Saúde da Família.
Paralelamente ao acompanhamento para a implementação de políticas públicas voltadas para a saúde da população residente no território, foram formadas as Comissões de Cultura e Educação e de Infra-Estrutura, Segurança e Meio-Ambiente. A Comissão de Cultura e Educação realizou como primeiro projeto o Show Peri Alto em Ação, no dia 27 de maio de 2012, do qual participaram bandas de rap do bairro e região, com intervenções artísticas de teatro, e mobilizou cerca de 100 moradores, sobretudo jovens. A Comissão de Infra-Estrutura, Segurança e Meio-Ambiente trouxe para o bairro de maneira mais efetiva a Operação Cata-Bagulho, que ampliou o recolhimento de objetos sem utilidade, como móveis e eletrodomésticos velhos.
Foram 5 caminhões que trabalharam durante o dia 26 de maio percorrendo as ruas e praças do bairro, com o acompanhamento dos moradores membros da Rede Peri Alto, e saíram lotados por materiais deixados pelos moradores em suas portas. Foi uma atividade de grande sucesso, que mobilizou e trouxe benefícios para cerca de 300 famílias. E o mais importante: não fomos nós que fizemos, e sim apenas facilitamos um processo. Era a Rede Peri Alto que, com suas próprias pernas, decidia o que era prioritário e fazia acontecer.
Com a visibilidade ocasionada por essa ação, criou-se um movimento reivindicatório no bairro contra as multas abusivas e sem aviso prévio que haviam sido aplicadas sobre os moradores por causa de irregularidade nas calçadas do bairro. Os moradores organizados foram dialogar com a sub-prefeitura para buscar solucionar a questão.
A Rede Peri Alto, amadurecendo sua identidade, tornou-se a UMPA - União dos Moradores do Peri Alto, e continuamos atuando no desenvolvimento de sua organização, caminhando para a formalização jurídica.
Conclusões
Nos mais de 16 meses em que estamos presentes no Peri Alto, valorizamos a construção de processos de desenvolvimento comunitário, isto é, do foco em processos que gerem autonomia, que ampliem a capacidade entre os participantes de organização, expressão, gestão, liderança, trabalho em equipe, realização de projetos, relacionamento com instituições, captação de recursos, mobilização. Tal foco nos processos, tem como progressivo resultado “pessoas que sabem fazer receitas para gerar novos resultados”, pessoas que são criadoras de caminhos e não receptoras de pacotes, de acordo com os próprios anseios. Cada vez mais as pessoas sabem o que querem e se apropriam dos meios para realizar sonhos coletivos. De maneira que, por meio desta cultura protagonista, seja mantido um campo fértil para a realização de mudanças a curto, médio e longo prazo.


