Introdução
O Projeto Células de Transformação atua desde 2011 na Brasilândia, distrito da zona norte da cidade de São Paulo, com o objetivo de fortalecer organizações de moradores já existentes. A missão é despertar os sonhos e potenciais das pessoas, de modo a se sentirem capazes de co-criarem realidades sociais, econômicas e culturais juntas.
Conhecendo
O Jardim Guarani, é um dos sub-distritos que compõe a Brasilândia, região grande e populosa com quase 300 mil habitantes em 21km² de extensão. Mesmo tendo passado por processos de urbanização, a Brasilândia ainda sofre com a ausência de equipamentos urbanos adequados e serviços públicos de primeira necessidade. A falta de saneamento básico associada a uma esparsa coleta de lixo, creches insuficientes e uma rede de transporte público inadequada às demandas do bairro são alguns dos desafios encontrados por lá. Diante desse cenário, a Brasilândia conta com uma quantidade significativa de iniciativas sociais e organizações culturais, mas que não dialogam entre si ou ainda não alcançaram seu potencial pleno de atuação.
Histórico da Brasilândia
As primeiras pessoas que chegaram à região, em meados da década de 60, eram na sua maioria migrantes de outros estados. Aos poucos construíram suas casas de modo autônomo sem qualquer planejamento urbano por parte do Estado. Segundo relatos de moradores do Jardim Guarani, somente nos anos 80 o bairro foi devidamente loteado e as escrituras foram entregues pela prefeitura em um mutirão, após muitas reivindicações. Todos os serviços existentes no bairro foram conquistados pelos moradores, como a construção da rede de coleta de esgoto, pavimentação e iluminação.
Demandas:
- Transporte
Durante muitos anos os moradores se deslocavam pelo bairro em caminhões e mais tarde em peruas. Faz poucos anos desde que foram criadas linhas de micro-ônibus por parte do governo para atender a demanda dos moradores, porém o problema está muito distante de estar resolvido. Os trajetos realizados pelas linhas de ônibus são muito criticados pela maioria dos moradores que conhecemos, pois circula por todo o bairro antes de se dirigirem ao centro, o que acaba criando um desconforto aos usuários proporcionando viagens mais longas.
A relação dos moradores com o lixo também é alvo de muitas insatisfações. Há pouquíssimas latas ou caçambas de coleta, o que obriga os moradores a depositarem seus descartes nas ruas e calçadas, inviabilizando espaços de sociabilidade e convívio. Todos os dias há lixo nas calçadas, o que em parte é responsabilidade da prefeitura, que poderia adequar a rotina de coleta à demanda, mas também consequência da ausência do hábito dos moradores em separar o lixo e descartá-lo somente nos dias estabelecidos.
- Resíduos
A coleta de resíduos pela prefeitura também não atende o distrito em totalidade, já que os caminhões não conseguem percorrer todas as ruas e vielas. A chuva, os catadores de materiais recicláveis que são obrigados abrirem os sacos de lixo - já que não há coleta seletiva - e até mesmo os cachorros e gatos que buscam restos de alimentos, são fatores agravantes para o cenário.
- Cultura
Há inúmeras iniciativas culturais na Brasilândia, o que encanta quem passa a frequentar o bairro. Rap, saraus literários, casas de funk, rodas de samba entre outras linguagens estão presentes, mas ainda distanciadas entre si. Identificamos uma carência de comunicação entre esses eventos e as pessoas que os organizam atuam separadamente e tem dificuldade de dialogarem entre si. Não há espaços culturais e de lazer proporcionais à quantidade de moradores dos bairros.
Parceiros
O projeto Células de Transformação conta com algumas organizações parceiras no bairro que são, entre outras, a AMURT-AMURTEL, a Associação e Rádio Comunitária Cantareira e o CCA Ana Maria.
Objetivos
O objetivo do projeto CdT na Brasilândia é fortalecer lideranças e organizações em rede.
Atuamos hoje em duas frentes:
- Apoio para a criação de um centro cultural, o “Espaço Fazê O Quê!?” no Jd. Carumbé;
- Apoio na formação da Associação de Moradores da Vila Brasilândia; Foram realizadas as seguintes atividades em um ano e meio de Células de Transformação na Brasilândia:
- Realização do Diagnóstico Participativo e desenvolvimento de atividades culturais no Conjunto Habitacional Jd. Guarani;
- Trabalho, Emprego e Geração de Renda: Oficinas de Elaboração de Curriculum, Realização do curso “Empregos Verdes”, na sede da AMURT-AMURTEL.
- Educação e Cultura: atividades com crianças e adolescentes do Centro da Criança e do Adolescente Ana Maria e apoio para festas da AMURT no bairro.
- Diagnóstico Participativo: com o objetivo de se aproximar e empoderar os moradores, foram realizadas entrevistas e caminhadas transversais (com a intenção de observar e refletir sobre o bairro).
- Educação Ambiental e Cidadania: Oficinas de Agentes Ambientais Mirins para crianças da rua do “Espaço Fazê o Quê?!”, no Jd. Carumbé (confecção de banquinhos com material reciclável, construção de brinquedos com material reciclável, transmissão de filmes, produção coletiva de livro, produção criativa de ilustrações, entre outras ações).
- Participação no planejamento, organização e mobilização para a festa de dia das crianças do Conjunto Habitacional do Jd. Guarani.
História da Atuação
O trabalho começou em 2010 através do apoio da AMURT-AMURTEL, que possui sua sede no bairro. Com o intuito de conhecer alguns moradores, foram realizadas oficinas de Curriculum, na qual os participantes, na sua maioria jovens, refletiam sobre sua história e habilidades ao criarem um documento que pudesse facilitar a busca por emprego. Alguns participantes de fato foram empregados com esse material.
Nesse mesmo ano foi iniciado o diagnóstico participativo na região, que criou um panorama inicial do território no qual os multiplicadores estavam entrando. A partir do mês de Setembro, os multiplicadores Células conheceram a Associação e Rádio Comunitária Cantareira, cuja sede passaram a frequentar participando de programas, realizando oficinas ou simplesmente encontrando os comunicadores com os quais criamos relações de confiança. O diagnóstico participativo foi completado neste momento.
Paralelamente, entramos em contato com o CCA - Centro da Criança e do Adolescente -, localizado na Vila Penteado próximo ao Jd. Guarani, onde realizamos um trabalho de massagem e descoberta do corpo com crianças de 4 a 7 anos e uma vivência em Teatro Social com adolescentes de 11 a 16 anos. O Teatro Social é uma metodologia criada por um dos fundadores do CdT, Giulio Vanzan.
Em ambas as atividades o principal desafio foi trabalhar a violência, tanto verbal quanto física que as crianças alimentam nas relações entre elas, apesar de serem carinhosas com os multiplicadores Células. A barreira do toque positivo foi ultrapassada com os pequenos, e os grandes começaram a compreender o valor de construir amizades e formar um grupo. Ao final do percurso, os adolescentes apresentaram duas peças de teatro com temas escolhidos e desenvolvidos por eles mesmos: a questão do lixo e o contexto social do trabalho de doméstica - inspirados na novela televisiva que estava sendo transmitida na época.
Foi com um dos comunicadores da Rádio Comunitária Cantareira que realizamos nossa primeira grande ação na Brasilândia. Entre o final de 2011 e começo de 2012 conhecemos a Roze, que além de trabalhar na Rádio Cantareira apresentando o programa Brasilândia Encanta aos sábados, é educadora e moradora do Jardim Carumbé. Seu sonho era pensar junto com os seus vizinhos uma solução para a questão do lixo na sua rua. Ao longo desses dois anos de trabalho na região, o lixo sempre despontou como uma das principais insatisfações dos moradores. O lixo se acumula pelos cantos das ruas, vielas e “praças”, o que além de gerar mal-cheiro e doenças, ocupa os poucos espaços de sociabilidade existentes.
A Roze nos procurou com a vontade de trabalharmos juntos em busca de uma solução. Sabendo que o problema do lixo é consequência tanto da deficiência na coleta de resíduos por parte da prefeitura e a falta de conscientização por parte dos moradores sobre o lixo, resolvemos estrategicamente iniciar um trabalho com as crianças. Como Daniel, companheiro da Roze, também tinha o sonho de transformar a garagem da sua casa em um espaço da comunidade, resolvemos criarmos juntos desses dois sonhos combinados um espaço cultural onde ocorreriam aos sábados as Oficinas de Formação de Agentes Mirins.
Um pequeno grupo de pessoas, motivadas e determinadas a tornar o sonho coletivo realidade, em dois mutirões comunitários transformaram a garagem da casa da Roze no “Espaço Fazê o Quê?!”. A inauguração aconteceu com uma noite musical de apresentação de músicos amadores, que fez um grande sucesso na rua. Além dele, o movimento organizou atividades de muralismo e de criação de materiais de protestos políticos aos domingos.
As Oficinas de Formação de Agentes Mirins com as crianças duraram cinco semanas entre os meses de Julho e Agosto de 2012 e foram realizadas em conjunto pelos multiplicadores Células e pela Roze. As oficinas eram abertas e o número de crianças variava. As atividades propostas eram planejadas com antecedência, mas eram sempre muito flexíveis às vontades dos presentes.
Ao longo das cinco oficinas, conversamos muito sobre a importância de pensarmos o que é lixo e o que podemos fazer com ele, desde o modo como o descartamos ou como reciclamos. Produzimos banquinhos a partir de caixas de leite, que foram utilizados por todos nós no espaço, brinquedos e fantoches, e um livro contando a história do lixo a partir do que foi observado no bairro pelas crianças e refletido em conjunto. Ao final, o trabalho foi apresentado aos pais e moradores pelas crianças, que também receberam um crachá de Agente Mirim, utilizado por elas até hoje.
No segundo semestre desse ano de 2012, passadas duas semanas da finalização das oficinas, o Células juntamente com todos os envolvidos no “Espaço Fazê O Quê!?”, realizaram reuniões para avaliar, refletir e pensar coletivamente os próximos passos do espaço.
Em Outubro de 2012, iniciamos outra frente de trabalho no Conjunto Habitacional do Jd. Guarani. Nesses pequenos edifícios, ou simplesmente “prédinhos”, vivem famílias que há três anos atrás foram retiradas da beira de um córrego que seria canalizado. Entre os moradores, há um grupo mobilizado, participante do Conselho Gestor, que dialoga com o Plantão Social - responsável por dar assistência aos moradores que sofreram essa reurbanização. Esse mesmo grupo, junto com alguns outros moradores, também realiza festas de dia das crianças e junina, e estão em processo de criação de uma Associação de Moradores da Vila Brasilândia - a mais próxima da região atualmente é Associação Cachoeirinha, distante e desconectada daquela parte do bairro.
Iniciamos o contato com esse grupo, organizando e realizando junto com eles a Festa de Dia das Crianças deste ano. A partir daí, pudemos identificar alguns sonhos: a consolidação dessa Associação de Moradores da Vila Brasilândia; a construção de um espaço comum para os moradores dos “prédinhos”; aulas de reforço para as crianças; fazer um cinema ao ar livre semanalmente, a partir de projeção em paredão branco; vontade de realizar atividades com moradores de casas mais precárias, localizadas ao lado dos “prédinhos”; entre outros ainda não descobertos. O próximo passo agora é reunir um grupo interessado em agir, para coletivamente planejarmos, realizarmos e, em seguida, celebrarmos mais uma conquista empoderada na Brasilândia.
Conclusões
Em tão grande território, com tantas pessoas, histórias, grupos e organizações, há milhares de sonhos flutuando pela Brasilândia. É necessário superar a individualidade e acomodação das pessoas, e, para isso, o Células Brasilândia se coloca como o facilitador para uma maior união da comunidade, cultivando a relação e o diálogo entre os indivíduos e grupos que já estão agindo. O objetivo de fortalecer todas as ações e movimentos é atrair e empoderar mais e mais pessoas.
O desafio é grande, mas o processo já começou!

